Registro sobre aumento da pobreza no Brasil

06.12.2018

Senador Paulo Paim (PT/RS)
paulopaim@senador.leg.br

Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Senadores. 

A democracia brasileira para se consolidar precisa ser acarinhada todos os dias. Nós temos a obrigação de vigiá-la e fomentar o diálogo. Ela é base assimétrica do desenvolvimento econômico, social, político e cultural.
Mas, com certeza, não alcançaremos a sua plenitude, o esplendor democrático, a democracia - que somos apaixonados - se a pobreza e a fome pintarem em cores vivas o cenário do nosso país.   

Triste, de nos deixar envergonhados, a notícia de que, em 1 ano, o número de brasileiros em situação de pobreza aumentou em quase 2 milhões.

O número passou de 52,8 milhões em 2016 para 54,8 milhões em 2017, um crescimento de quase 4%. A pobreza extrema aumentou 13%, passando a atingir 15,3 milhões.

Esses números estão na pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e amplamente abordada pelos veículos de comunicação.   

Observem que, do total de 207 milhões de brasileiros, 7,4% estavam abaixo da linha de extrema pobreza em 2017. Em 2016, quando a população era estimada em cerca de 205,3 milhões, esse percentual era de 6,6%. 

Conforme André Simões, gerente da pesquisa, o aumento da pobreza se deu pela maior deterioração do mercado de trabalho. 

Ele lembrou que em 2017 houve um pequeno crescimento do PIB, ao contrário dos dois anos anteriores, mas que essa alta foi puxada pela agroindústria, “que não emprega tanto quanto outras atividades”. 

Para ele, “A renda do trabalho compõe a maior parte da renda domiciliar. A taxa de desocupação continuou elevada neste ano, por isso a pobreza aumentou”. 

O IBGE considerada em situação de extrema pobreza quem dispõe de menos de 1,90 de dólar, por dia, o que equivale a aproximadamente 140 reais por mês. 

Já a linha de pobreza é de rendimento inferior a 5,5 dolares por dia, o que corresponde a cerca de 406 reais por mês. Essas linhas foram definidas pelo Banco Mundial para acompanhar a pobreza global. 

Dos estimados 54,8 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, mais de 25 milhões estão nos estados do Nordeste. Nessa região, 44,8% da população estava em situação de pobreza em 2017. 

Na região Sul viviam 3,8 milhões de pessoas em situação de pobreza – o equivalente a 12,8% dos quase 30 milhões de habitantes dos três estados. 

No Sudeste, eram 15,2 milhões de pessoas, o equivalente a 17,4% da população total da região. 

O levantamento do IBGE mostra também que em 2017 havia no país 26,9 milhões de pessoas vivendo com menos de ¼ do salário mínimo, o que equivale a 234,25 reais, já que o salário mínimo era de 937 reais naquele ano. 

Este contingente aumentou em mais de 1 milhão de pessoas na comparação com o ano anterior. Em 2016, eram 25,9 milhões de brasileiros nesta condição. 

No mesmo período aumentou em 1,5 milhão o número de brasileiros com renda domiciliar per capita inferior a 85 reais por mês. Em 2016 eram 8,2 milhões de pessoas nesta condição, contingente que saltou para 9,7 milhões em 2017 – um aumento de 18,3%. 

O aumento da pobreza no Brasil, conforme os especialistas, está ligado a crise no mercado de trabalho, com aumento do desemprego e da informalidade, a recessão econômica intensa dos dois anos anteriores, ...

... além do corte de investimentos no Bolsa Família, programa de transferência de renda voltado justamente para as classes mais pobres. 

A pesquisa mostrou ainda o quão desigual permanece a distribuição de renda no Brasil. 

Na média nacional, os 10% mais ricos chegam a receber 17,6 vezes mais que os mais pobres. Na divisão por capitais, essa diferença chega a 34,3 vezes – patamar alcançado pela cidade de Salvador. 

Senhor Presidente,

É inadmissível que os índices de pobreza e de desigualdade aumentem em nosso país. A situação é gravíssima. O que fazermos então? Qual o nosso papel de homens públicos?

Estamos pensando e trabalhando para melhorarmos a vida dos brasileiros? Em poucos dias teremos um novo governo.

Lembro que o sociólogo Betinho, lá nos anos 90, dizia que o Brasil precisava de um grito de guerra contra a fome, a miséria e a pobreza. 

Perdemos a nossa capacidade de indignação? Somos homens? Ou o que? Onde está a nossa inteligência e consciência?  

Solidariedade, fraternidade e amor... é isso que precisamos. 

Era o que tinha a dizer,
Sala das Sessões, 6 de dezembro de 2018.
Senador Paulo Paim.
Compartilhe nas redes sociais: