O aumento da intolerância no Brasil e no mundo

03.06.2019

Senador Paulo Paim (PT/RS)
paulopaim@senador.leg.br

Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Senadores.

O tema da minha fala de hoje é intolerância. 

A intolerância deixa a alma ferida. A intolerância é ausência do conviver com as diferenças, do não aceitar as pessoas como elas são, do não aceitar o ponto de vista dos outros.   

Por que o ser humano é intolerante? ... 

Por que a sociedade caminha, nestes tempos tão conturbados de hoje, para o extremo da intolerância, ou seja, para a violência psíquica e física?   

A intolerância tem como base o preconceito e a discriminação. E isso leva, consciente ou inconscientemente, a busca pelo controle, a busca pelo poder, a busca pela supremacia...

Isso se dá através do racismo, do sexismo, do antissemitismo, da homofobia, ...

... do etaísmo (discriminação por idade), da intolerância religiosa, da intolerância política, da intolerância social.  

Existem vários estudos que explicam a intolerância, ou pelo menos tentam explicar quais motivações levam a esse comportamento.

A coletividade e a solidariedade saem de cena e dão lugar ao individualismo e ao imediatismo. Não há o “nós todos”; ... o “eu” é que prevalece. 

Segundo Zygmunt Bauman, o ritmo incessante das transformações gera angústias e incertezas e dá lugar a uma nova lógica, pautada pelo individualismo e pelo consumo. 

Isso ele chama de modernidade líquida. Fluidez” é a qualidade de líquidos e gases.  Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade... 

Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”. 

A modernidade líquida para ele é o momento histórico que vivemos atualmente, em que as instituições, ...

... as ideias e as relações estabelecidas entre as pessoas se transformam de maneira muito rápida e imprevisível.

A modernidade líquida traz consigo a intolerância.

Conforme o Dossiê sobre Intolerância, as crises políticas e econômicas também motivam comportamentos intolerantes.  

Quando um país enfrenta uma crise, é comum que grupos políticos busquem culpados...

É aí que surgem figuras políticas de posicionamento radicais com propostas simples para problemas profundos. 

No mundo inteiro temos visto o surgimento de partidos tanto de extrema direita como de extrema esquerda. Isso é fato, é realidade. Por isso temos que ficar de olhos bem abertos, fazendo a vigilância necessária.

O crescimento das redes sociais contribui para que a intolerância fique mais visível.   

Segundo a ONG Safernet, nos últimos anos, ...

... as denúncias contra páginas que divulgam conteúdos racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos, neonazistas e de intolerância religiosa, cresceram 200%. 

Tudo é muito rápido, tudo é liquido. As informações circulam em segundos, num estalar de dedos. Há um enorme distanciamento. Tudo contribui para a polarização política. Tudo vira intolerância.   

Senhor Presidente,

É claro que não é fácil conviver com opiniões, crenças, valores e contextos diferentes. Mas o mínimo que temos que fazer é respeitar. Posso não concordar, mas tens o meu respeito.  

Quantas e quantas vezes escutamos relatos de agressões verbais, agressões físicas, desrespeito e intolerância em razão de opiniões   políticas, orientação sexual, religião, futebol, nacionalidade, raça.  

Eu já citei aqui neste plenário alguns escritos do Prêmio Nobel de 1986, Elie Wiesel, que, tendo perdido, aos 15 anos, a mãe, o pai e uma irmã nos campos nazistas de extermínio, afirmou: ...

Abre aspas, “Eu jurei nunca ficar em silêncio onde os seres humanos estiverem passando por sofrimento e humilhação...

Devemos sempre tomar partido. Neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja o torturador, nunca o atormentado”, fecha aspas.

O cenário do mundo e do Brasil atual é de muita intolerância, de todos os tipos. 

Os Estados Unidos querem construir um muro na divisa com o México. Ora, o muro de Berlin caiu há 30 anos. Todos nós lutamos para que ele caísse, para que não houvesse mais separação. 

Imigrantes e refugiados são alvo de intimidação, racismo, violência e ódio. No ano passado, a ONU emitiu nota, preocupada com a violência contra imigrantes e refugiados venezuelanos no Brasil. 

Há poucos dias o governo alemão aconselhou judeus a evitarem o uso do quipá (acessório religioso) em público, devido ao aumento do número de incidentes antissemitas e contra estrangeiros.  

Em maio deste ano membros de um terreiro de candomblé, localizado no município de Alagoinhas, estado da Bahia, foram vítimas de intolerância religiosa.

Recentemente, segundo a imprensa, traficantes e milicianos impediram terreiros de umbanda e candomblé de funcionar em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.

O Brasil registrou em 2019, até o momento, 141 mortes de pessoas LGBTs, mais de uma morte por dia. Esse número mantem o país entre os que mais matam LGBTs no mundo, seguindo a tendência de anos anteriores.

As mulheres são alvo: feminicídio, violência moral, patrimonial, psicológica, sexual, obstétrica, institucional. 

A média mensal de casos de violência contra a mulher cresceu 24% de 2017 para 2018. Tentativas de assassinato mais que dobraram. Entidades internacionais alertam para o enfraquecimento de políticas destinadas a esse público.

Desde o início do ano, uma média de cinco ocorrências de feminicídio foram registradas no Brasil... 

O levantamento foi realizado pelo professor Jefferson Nascimento, doutor em direito internacional pela Universidade de São Paulo. Há registros de ocorrências em pelo menos 94 cidades, distribuídas por 20 estados e o DF.

Há também intolerância contra pobres, negros, índios, idosos, aposentados. 

Há intolerância contra posicionamento político... por ter essa ou aquela opinião, por ser deste ou daquele partido, intolerância por ser governo, intolerância por ser oposição. 
 
Senhoras e Senhores,

O que fazer contra a intolerância? Contra esse mal que amarga a vida das pessoas. O que devemos fazer para termos uma sociedade saudável?

A intolerância traz o radicalismo, o extremismo, a discórdia, o rancor, o ódio, a violência, a frieza, o desânimo, o desamor. 

A desumanidade do homem para com o seu semelhante não pode ser a marca do nosso mundo... 

Pelo contrário, o ser humano deve ser o centro, a nascente do rio, o porto seguro nos mares bravios. 

Ah, o meu Brasil brasileiro, queremos ele generoso, liberto, democrático, igual, solidário, fraterno, conciliador e plural, sem intolerância, por isso feliz. 

É preciso cultivar a tolerância. 

Ela é o esteio da vida.  É o sacrifício da evolução da condição humana. Mas, tolerar também é praticar, por isso é uma virtude....

Tolerar é ensinar as crianças que todos somos iguais... 

O segredo da tolerância está no poder da palavra, no bom senso do diálogo para transformar o mundo e o nosso país.

Não há alternativa, não há plano A ou plano B... Há tão somente a existência de sempre seguir o caminho do bem. 

Sim, é possível pintar o planeta com as cores da paz, do amor, da justiça, da igualdade e da solidariedade. 

Era o que tinha a dizer,
Sala das Sessões, 03 de junho de 2019.
Senador Paulo Paim.  

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