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31.Julho
Uma vida dedicada ao povo: o legado de Paulo Paim após 40 anos ininterruptos no Congresso Nacional

Opinião

O Congresso Nacional perde uma de suas vozes mais respeitadas

Adão Pretto Filho
Autor | Deputado estadual pelo PT-RS

Crédito: Carlos Moura/Agência Senado

Há homens públicos que passam pela política. Outros ajudam a transformar a história do Brasil. Paulo Paim pertence a esse segundo grupo. Ao anunciar que não disputará um novo mandato no Senado Federal, encerra uma trajetória inédita de 40 anos ininterruptos no Congresso Nacional — um feito jamais alcançado por outro parlamentar desde a Proclamação da República. Eleito deputado federal constituinte pelo PT, em 1986, foi cadeira cativa na Câmara Federal até 2002, quando elegeu-se senador pelo Rio Grande do Sul. De lá para cá, foram três mandatos consecutivos no Senado. 

Mais do que a longevidade de sua vida pública, impressiona a coerência com que construiu essa caminhada. Durante quatro décadas, Paulo Paim permaneceu fiel aos mesmos princípios que o levaram à política: a defesa dos trabalhadores, dos aposentados, da igualdade de oportunidades, dos direitos humanos e de todos aqueles que, por muito tempo, permaneceram à margem das políticas públicas.

Seu legado está gravado na legislação e na vida de milhões de brasileiros. Entre suas principais contribuições estão a aprovação dos Estatutos da Pessoa Idosa, da Igualdade Racial, da Pessoa com Deficiência e da Juventude, instrumentos fundamentais para ampliar direitos e combater desigualdades. Também foi protagonista na inclusão da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos currículos escolares, fortaleceu políticas de promoção da igualdade racial e teve papel decisivo na aprovação da Lei de Cotas para o ensino superior e o serviço público, ampliada em 2025 por iniciativa de seu mandato.

Mas a história de Paulo Paim vai muito além dos projetos aprovados. Ela é marcada pela coragem de colocar o próprio corpo a serviço das causas em que acreditava. No início da década de 1990, realizou uma greve de fome em defesa da valorização do salário mínimo. Naquele período, quando um salário mínimo equivalente a 100 dólares parecia um objetivo distante, Paim mostrou que a política também exige coragem, firmeza e disposição para enfrentar injustiças quando a dignidade do povo está em jogo.

Essa mesma coerência pode ser vista em outra bandeira histórica de sua atuação. Há quase quatro décadas, Paulo Paim já defendia o fim da escala de trabalho 6 por 1, muito antes de o tema ocupar o centro do debate nacional. Foi um dos primeiros parlamentares brasileiros a denunciar os impactos dessa jornada sobre a saúde, a convivência familiar e a qualidade de vida dos trabalhadores. Mais uma vez, o tempo demonstrou que estava à frente de sua época.

Tenho o privilégio de falar não apenas como deputado estadual, mas também como filho de alguém que compartilhou boa parte dessa caminhada. Meu pai, Adão Pretto, construiu ao lado de Paulo Paim uma amizade sólida e uma parceria política que marcou três mandatos na Câmara dos Deputados. Lutaram juntos pela reforma agrária, pela agricultura familiar, pelos direitos dos trabalhadores e por um país mais justo. Eram homens de origens diferentes, mas unidos pelo mesmo compromisso com aqueles que mais precisam da presença do Estado.

Cresci acompanhando essa convivência e aprendi que a grandeza de um líder não se mede apenas pelas leis que aprova ou pelos cargos que ocupa. Mede-se, sobretudo, pela forma como trata as pessoas. E nisso Paulo Paim sempre foi exemplo. Cordial, generoso, atencioso e profundamente humano, nunca perdeu a capacidade de ouvir, dialogar e acolher. Fez da política um instrumento de construção coletiva, sempre guiado pelo respeito e pela sensibilidade diante das necessidades do povo brasileiro.

Vivemos tempos em que a política, muitas vezes, parece dominada pela polarização, pela intolerância e pelo imediatismo. A trajetória de Paulo Paim nos lembra que existe outro caminho: o da coerência, da persistência e da defesa intransigente dos direitos humanos e da justiça social. Seu mandato sempre foi maior do que qualquer disputa eleitoral. Foi um compromisso permanente com o Brasil.

O Congresso Nacional perde uma de suas vozes mais respeitadas. Mas sua história permanecerá viva em cada direito conquistado, em cada trabalhador valorizado, em cada jovem que ingressou na universidade graças às políticas de inclusão, em cada idoso protegido pela legislação e em cada brasileiro que encontrou na atuação de Paulo Paim um defensor incansável de sua dignidade.

Paulo Paim deixa o Parlamento no fim deste ano, mas permanece na história. Seu maior legado não são apenas os 40 anos ininterruptos no Congresso Nacional, um marco inédito da República. Seu maior legado é ter demonstrado, dia após dia, que a política vale a pena quando é exercida com coragem, coerência, humildade e compromisso permanente com o povo brasileiro.

FONTE: BRASIL 247